Para quem está olhando de fora, todo entretenimento é um gasto inútil

Por Vicente Martin Mastrocola

“o indiferente não vê o que está em jogo […] é alguém que não tendo os princípios de visão e divisão necessários para estabelecer as diferenças, acha tudo igual”. Essa frase é do sociólogo francês Pierre Bourdieu e está cravada numa obra dele que chama “Razões práticas: sobre a teoria da ação“. Junto com meu amigo Felipe Mello destrinchamos essa ideia em um livro que publicamos no distante ano de 2016 chamado Game Cultura.

Basicamente, a frase explica o desconforto/desentendimento que uma pessoa de fora de um determinado ambiente de trocas simbólicas e materiais pode vir a experimentar. Essa pessoa, por não ter sido iniciada nas regras de um determinado ecossistema, não é tomada por determinada empolgação da mesma forma que os “frequentadores habituais”. Vê, em tudo que não participa, algo fútil, ridículo e gasto de tempo/dinheiro.

Vou dar o exemplo que motivou esse post: comentei com um amigo que estou envolvido ao extremo (porque não estou viciado, eu paro quando quiser) no card game digital Marvel Snap e, hoje pela manhã, paguei dez dólares em um pack do game que libera uma carta de personagem nova e alguns bônus de nível. Ele me olhou com estranheza; com aquele olhar julgador que certamente fitaremos no dia do Juízo Final. Ficou calado por um instante e soltou um “Você é louco de gastar dez dólares num jogo de cartinha virtual?!!!”

O que meu amigo não entende é que para quem está olhando de fora, tudo é um gasto inútil; ou, para os propósitos desse post, para quem está olhando de fora, todo entretenimento é um gasto inútil. Eu tentei explicar para ele que não estou gastando dez dólares em cartas virtuais, estou gastando dez dólares em momentos de entretimento. Estou investindo dez dólares, que, vamos combinar, são quatro cervejas (ruins) num boteco, para algumas horas de bons momentos me entretendo com um universo que gosto muito.

Percebi que o grande problema da conversa era o fato de eu ter gasto o dinheiro com um bem virtual. Expliquei para ele que o que eu fiz é igual ir ao cinema ou a um show. Também saímos de mãos vazias dessas experiências e pagamos por elas. Valorizamos elas quando estamos envolvidos com elas.

Ele tentou me convencer que não é a mesma coisa. Porque se você está comprando cartas, skins, moedas, vidas ou qualquer outra coisa em games você está jogando grana no lixo.

A discussão se prolongou e eu desisti.

Lembrei do parça Bourdieuzão e parei de argumentar.

Me despedi do meu amigo, entrei no ônibus, coloquei o fone e abri o celular no Marvel Snap para fruir de uma experiência que eu acho que vale a pena pagar e me divirto horrores (por enquanto, até achar outra).

#GoGamers

Diferenciando protótipo de MVP

Embora frequentemente confundidos, o protótipo e o MVP (Produto Mínimo Viável) assumem funções distintas no processo de desenvolvimento de produtos, especialmente no contexto de